
Quando uma montadora joga bilhões fora e ainda assim não consegue convencer o público a comprar, o problema deixa de ser apenas produto e vira identidade.
A Honda surpreendeu investidores ao reconhecer um impacto de R$ 82 bilhões (¥2,5 trilhões), ligado principalmente a uma aposta mal cronometrada em EVs que acabou encurtada.
O tamanho da baixa contábil, anunciada na semana passada, aumenta a chance de a empresa reportar a primeira perda anual de sua história.
Só que o buraco é mais antigo do que a desaceleração recente do mercado de EVs, porque a Honda já vinha patinando no negócio principal de automóveis, segundo reportagem da Bloomberg.
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Nos EUA, seu maior gerador de receita, as vendas cresceram apenas 0,5% no ano passado, e a operação na China também perdeu tração nos últimos anos.
O resultado foi uma sequência de quatro trimestres de prejuízo nas operações automotivas, o pior período desde o terremoto e tsunami de Fukushima há 15 anos.
A salvação temporária veio de outras frentes, como motocicletas, que seguem altamente lucrativas e ajudam a amortecer o tombo do lado dos carros.
Para o analista Tatsuo Yoshida, da Bloomberg Intelligence, o carro já vinha fraco, mas o que detonou o resultado foi a dimensão das perdas ligadas à estratégia de EVs.
A ironia é que a Honda saiu na frente no híbrido nos EUA ao lançar o Insight sete meses antes do Prius, mas hoje oferece só quatro híbridos, contra 29 da Toyota.
Mesmo com o discurso de dobrar vendas de híbridos até o fim da década, a Honda disse no começo do ano que vai reduzir a produção de híbridos nos EUA.
A Toyota acelerou o híbrido em quase toda a gama e ainda tornou híbridos “padrão” em modelos-chave como Camry, Sienna e Sequoia, além de emplacar RAV4 híbrido entre os campeões.
A Ford também ganhou tração com a Maverick híbrida e planeja espalhar a opção pela linha, enquanto os híbridos já respondem por cerca de um terço das vendas da F-150.
A Honda, por outro lado, não oferece híbrido em sua picape, minivan ou SUVs maiores e viu a reestreia do Prelude híbrido-only decepcionar, com apenas 299 unidades vendidas no mês passado.
A empresa apostava alto em veículos definidos por software, com dois EVs da linha 0 Series e o Acura RSX elétrico previstos para estrear nos EUA no ano que vem, mas os três foram cancelados.
O CEO Toshihiro Mibe havia rompido com a tradição de excelência em combustão para tentar transformar a Honda em potência de motores elétricos até 2040, mas a meta de EVs caiu de 40% para 20%.
A parceria abortada com a GM já indicava demanda morna, e o Prologue lançado em 2024 vendeu 1.067 unidades no mês passado, queda de 64% em um ano após o fim de subsídios em setembro.
Ainda assim, a Honda dobrou a aposta em baterias ao comprar a parte da LG Energy Solution numa fábrica de US$ 4,4 bilhões (R$ 23 bilhões) em Ohio, enquanto Ford e Stellantis recuavam em projetos parecidos.
Como sinal de reset mais amplo, a Honda também reverteu em fevereiro uma reorganização que separava desenvolvimento de veículos de P&D avançado, devolvendo o comando do desenvolvimento ao braço de P&D.
A erosão de longo prazo remonta a 2012, quando a gestão buscou meta de 6 milhões de vendas anuais e acelerou projetos e fábricas, pressionando engenharia e abrindo caminho para recalls e lançamentos mal executados.
As vendas globais atingiram pico em 2019 com 5,32 milhões, mas a empresa espera 3,3 milhões no ano fiscal que termina neste mês, abaixo de 3,7 milhões do ano passado, com a China em queda por 24 meses.
Mibe disse que outras mudanças virão após o “reset” dos EVs, e o conselho deve detalhar a reforma em um novo plano de negócios perto da divulgação do resultado anual em maio.
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