Sem produção nacional, o que será da Ford agora?

Pois é, após mais de um século, a Ford encerrou suas atividades industriais no Brasil, tendo começado aqui com a montagem em CKD do Ford T e do caminhão TT.


De lá para cá, a empresa – que já teve a Fordlândia… – começou a produzir caminhões e picapes nos anos 50 e carros na década seguinte, após a aquisição da emblemática Willys Overland do Brasil.

Mas, até aí a história nós conhecemos bem. Agora, o que será da Ford a seguir? No ano passado, a marca vendeu 139.255 unidades, usando sua fábrica de produção de Camaçari, mais General Pacheco e importações do Canadá, EUA e China.

Em 2019, foram 218.526 unidades e participação de 8,86% contra 7,06% do ano passado. Com queda abrupta, a Ford não resistiu ao coronavírus, visto que já vinha com comorbidades financeiras nos últimos anos.

Os rumores de uma saída da América do Sul eram fortes há algum tempo, embora a Ford não tenha feito exatamente como a GM, que saiu rapidamente da Europa, Rússia, Índia, Sudeste Asiático e região da Austrália.

Contudo, os bilhões de dólares de prejuízo vinham colocando a região na lista negra, especialmente quando a Ford decidiu ousar e acabar com quase todos os modelos que não fossem crossovers, SUVs, picapes e esportivos. Ou seja, era uma tragédia anunciada…

Maior valor agregado

A partir de agora, a Ford deve focar num portfólio com produtos de maior valor agregado e, consequentemente, de volume de vendas muito inferior ao do ano passado.

Dessa forma, ela evita atuar em faixas mais suscetíveis aos custos altos, que impactam diretamente nos preços. Assim, não espere mais ver a marca no quarteto líder, sua época passou…

Em portfólio, a Ranger continuará firme e forte com a produção argentina, enquanto a Ford reforça sua área comercial com a Transit uruguaia. O Bronco Sport será o principal produto em automóveis, seguido do Territory.

A gama ainda será reforçada pela picape Maverick, igualmente importada do México. A F-150 completaria a gama de picapes. O Mustang deve receber a companhia do Mustang Mach-E mexicano, que deve colocar um fim no Edge, já tido no Canadá como não indo além de 2022. Isso deixa as coisas interessantes na gama alta, que entre 2022 e 2023 deve adicionar o Bronco americano.

Não há expectativa pelo crossover Fusion, exceto se o mesmo for um elétrico mais em conta que o Mach-E. A esperança (e ela nunca morre) é que as vendas de Bronco Sport e Maverick alcancem aqui um nível que Hermosillo não consiga atender.

Nesse caso, o espaço vazio do Focus em General Pacheco poderia acomodar a linha de montagem para a dupla de base Escape. Seria uma oportunidade de trazer no futuro, um volume que atendesse a demanda.

Já em relação ao que ficou por aqui, a fábrica de Camaçari deve ser negociada pela Ford para outro fabricante. O momento não é dos melhores, mas para um fabricante interessado em entrar no mercado brasileiro, isso seria bom.

A experiência de Camaçari mostra que grupos como BYD, Changan e mesmo a brasileira CAOA, não dispensariam a oportunidade de analisar o caso. Para esta última, a expansão seria benéfica em vários sentidos, especialmente com uma marca nova.

Nas demais plantas, a Troller poderia ser vendida para outro fabricante, que assim daria continuidade ao T4 (veja também Troller: propostas aceitas nos EUA – venda anunciada em breve), mas com mecânica de outra origem. A venda da marca garantiria sua manutenção no mercado ou além. Já Taubaté não parece tão atraente no momento.

Dessa forma, a Ford se concentra em menos vendas e maiores margens com produtos mais competitivos, feitos em locais de baixo custo de produção, exceto a Argentina. Agora, é esperar para ver a reação do mercado às mudanças que a marca vai fazer.

 

Autor: Ricardo de Oliveira

Técnico mecânico, formado há 26 anos. Há 15 anos trabalha como jornalista no Notícias Automotivas, escreve sobre as mais recentes novidades do setor, frequenta eventos de lançamentos das montadoras e faz nossos testes e avaliações.

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