
A reação mais barulhenta ao novo EV da Ferrari não veio do ronco de motor, veio das redes, que trataram o design como um rompimento quase ofensivo com o passado.
A Ferrari apresentou em 25 de maio, em Roma, o Luce, um sedã liftback de quatro portas e cinco lugares que marca o primeiro carro 100% elétrico de produção da marca.
Desenvolvido com participação de Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, o modelo chega com preço de 550.000 euros (R$ 3.231.100) e promessa de reposicionar a grife no universo dos EVs.
O Luce traz mais de 1.014 cv, quatro motores elétricos, velocidade máxima acima de 310 km/h e alcance declarado superior a 500 km, com entregas previstas para o quarto trimestre de 2026.
Mesmo com essa ficha técnica, a discussão pública se concentrou na aparência, com gente dizendo que o carro lembra modelos muito mais baratos, como Nissan Leaf e até Fiat Multipla.

O mercado também reagiu rápido, já que as ações da Ferrari caíram cerca de 8% após o lançamento, sinalizando que investidores não compraram a ideia de primeira.
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Enrico Galliera, diretor de marketing e comercial da Ferrari, disse no evento que o principal alvo é um cliente que já possui um carro elétrico.
Isso muda a lógica de uma marca acostumada a viver de fidelidade, num momento em que, em 2025, a Ferrari entregou 13.640 carros e 81% foram para proprietários existentes.
A aposta tem endereço, porque a Ferrari já admitiu esperar que seu primeiro EV ajude a recuperar espaço na China, onde carros a combustão enfrentam regras mais duras e empecilhos de registro.

Em cidades como Xangai, o texto cita que obter uma placa pode levar de 1 a 2 anos para quem não ganha na loteria, enquanto EVs conseguem emplacar quase imediatamente.
Apesar de direcionar apenas 10% da produção ao país, a Ferrari viu as vendas locais caírem de cerca de 1.500 unidades em 2022, equivalentes a 11,7% do total, para cerca de 900 em 2025, ou 6,9%.
O desafio é amplificado por impostos de importação sobre carros a combustão, que o texto descreve como capazes de somar 75% num modelo com motor 4,0 litros, encarecendo drasticamente o produto.
Ao mesmo tempo, marcas chinesas vêm lançando EVs ultraluxuosos, como o Maextro S800 por 1.018.000 yuans (R$ 759.000), o Nio ET9 por até 818.000 yuans (R$ 609.900) e o BYD Yangwang U9 por 1,8 milhão de yuans (R$ 1.342.100).

Foi nesse pano de fundo que o texto descreve a reação chinesa como ainda mais cruel, com comparações do Luce a carros na faixa de 200.000 yuans (R$ 149.100) e piadas sobre “cara de projeto barato”.
A defesa implícita é que a Ferrari não tentou eletrificar um carro a combustão, mas criar um EV do zero, tratando a herança como algo que pode virar peso em mercados que exaltam futuro.
Flavio Manzoni, chefe de design da Ferrari, disse que num EV o objetivo aerodinâmico troca downforce por baixo arrasto, exigindo superfícies mais puras, laterais contínuas e até rodas visualmente mais planas.
No fim, a pergunta que fica não é se o Luce “parece Ferrari”, e sim se clientes chineses vão comprar a proposta, porque o destino do modelo pode estar menos na nostalgia e mais no novo status.
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