
A Stellantis diz estar disposta a colocar R$ 355 bilhões na mesa até 2030 para mudar sua forma de desenvolver carros.
A virada aparece no plano “FaSTLAne 2030”, apresentado em 21 de maio na sede de Auburn Hills, com a promessa de 60 lançamentos e 50 reestilizações.
Por trás dos números, a mensagem é mais direta: a empresa quer adotar um ritmo de software semelhante ao do Vale do Silício para enfrentar rivais chineses e concorrentes tradicionais.
O centro dessa estratégia é ampliar alianças com startups de IA e direção assistida, em vez de depender apenas de pesquisa e desenvolvimento internos.
Entre os acordos citados estão parcerias com a Qualcomm para sistemas avançados de assistência ao condutor e com a britânica Wayve, que afirma levar condução supervisionada “porta a porta” em escala.
A peça mais sensível do pacote, porém, é a expansão do relacionamento com a Applied Intuition, empresa de software automotivo sediada na Califórnia.
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Fundada por Qasar Younis, natural de Warren, a Applied Intuition passa a ajudar a Stellantis a desenvolver e escalar a arquitetura de software de próxima geração chamada STLA Brain.
Antes do anúncio mais recente, a companhia já participava do desenvolvimento do Smart Cockpit, um sistema de infotainment com IA pensado para conversar com o motorista, sugerir rotas e informar manutenção.
A ideia é que o Smart Cockpit evolua ao longo do tempo de uso e fique mais personalizado conforme a IA aprende hábitos do condutor.
O STLA Brain, por sua vez, vem sendo desenvolvido desde 2021 e é descrito como a base do “veículo inteligente”, responsável por atualizações remotas, integração de softwares e eletrônica do carro.
Ao reforçar o acordo, a Stellantis praticamente coloca essa espinha dorsal nas mãos de um parceiro externo, apostando em velocidade, escalabilidade e qualidade como vantagens.
Ned Curic, diretor de engenharia e tecnologia da Stellantis, disse em comunicado que esses três pontos são críticos para levar novas tecnologias à frota.
A escalabilidade é um tema inevitável para uma empresa com portfólio de 14 marcas, e Younis afirma que o objetivo é aplicar a mesma base em várias delas sem “carimbar” a autoria no produto final.
Em entrevista, Younis descreveu a relação como mais profunda do que um contrato típico de fornecimento, com equipes trabalhando do nível executivo ao operacional e presença frequente em Auburn Hills.
O escopo do trabalho inclui arquitetura de software central, integração com parceiros, autonomia em manobras e conexão com outras alianças citadas, como Qualcomm e Wayve.
A pressão por essa mudança vem de problemas que têm cercado a Stellantis, como queda de vendas nos EUA, lançamentos irregulares de EVs e dúvidas sobre a velocidade de modernização das montadoras tradicionais.
Sob o comando do CEO Antonio Filosa, a empresa vem apostando em parcerias para reduzir custos, encurtar prazos de desenvolvimento e melhorar a oferta tecnológica.
No discurso de Younis, o software automotivo tende a seguir o caminho do setor de tecnologia, com plataformas compartilhadas e ferramentas reutilizáveis, em vez de cada montadora construir tudo do zero.
Ele argumenta que esse modelo ajuda fabricantes ocidentais a competir com empresas chinesas que, segundo ele, operam com subsídios e perdas recorrentes.
Ao mesmo tempo, Younis sustenta que o desafio real das marcas tradicionais é equilibrar lucro, identidade e a complexidade de manter milhões de veículos já em circulação.
A Applied Intuition tenta se posicionar como infraestrutura “invisível”, permitindo que Jeep, Fiat, Dodge ou outras marcas mantenham interfaces e linguagem próprias sobre a mesma base técnica.
Para a Stellantis, a aposta revela uma mudança de era: o carro continua sendo engenharia, mas passa a ser também um sistema de código onde vencer depende de parceiros e da velocidade de iterar software.
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