
O sinal de alerta na indústria automotiva francesa piscou forte quando duas gigantes começaram a falar abertamente em enxugar operações no próprio quintal.
A Michelin e a Renault SA planejam novas reduções de custos na França poucos dias depois de o presidente Emmanuel Macron exaltar a capacidade do país de atrair investimentos do setor.
A Michelin informou na quinta-feira que estuda eliminar 1.500 posições na França ao longo de três anos, o equivalente a 9% da sua força de trabalho no país.
A fabricante de pneus justificou o movimento citando um “ambiente econômico altamente instável” e o peso da carga tributária francesa no dia a dia do negócio.
Na Renault, a discussão corre em outra frente, com a montadora dizendo que conversa com sindicatos sobre o fechamento de uma unidade de desenvolvimento de vans perto de Paris.
A empresa se reuniu com representantes para tratar do encerramento do site de Villiers-Saint-Frédéric, dedicado à engenharia de veículos comerciais leves.
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Segundo uma porta-voz, a maior parte dos 400 funcionários será mudada para o Technocentre, o grande complexo de pesquisa e desenvolvimento da marca nos arredores de Paris.
A Renault acrescentou que parte das funções também deve migrar para outras instalações no país e que, por enquanto, não há demissões planejadas.
O tema virou mais sensível porque, com Macron se aproximando do fim do seu segundo mandato, cresce o escrutínio sobre a estratégia industrial, e impostos, custos trabalhistas e energia aparecem no topo das queixas empresariais.
Na terça-feira, o presidente anunciou mais de €1 bilhão (R$ 6 bilhões) em investimentos da Stellantis NV em EVs na França, um gasto que a montadora ainda não confirmou.
O pano de fundo é europeu, com demanda fraca no setor automotivo e concorrência crescente de rivais asiáticos de menor custo, cenário que também pressiona empresas na Alemanha e na Itália.
O CEO da Michelin, Florent Menegaux, já havia dito no ano passado que a França estava destruindo sua base industrial com tributação excessiva, crítica que voltou a ganhar força com o novo plano.
A Michelin afirmou que os cortes mais recentes não envolverão desligamentos forçados e lembrou que já fechou duas fábricas na França, além de outras unidades na Europa.
Do lado das montadoras, a Renault encara a obrigação de cumprir regras de emissões cada vez mais rígidas da União Europeia e, ao mesmo tempo, responder ao avanço de marcas chinesas lideradas pela BYD Co.
Sob o comando do CEO François Provost, a empresa aprofundou uma ofensiva de redução de custos que também mira sua base de engenharia, aumentando a tensão com sindicatos.
Enquanto isso, a Stellantis, dona de Peugeot e Citroën, vem fechando acordos com parceiros chineses para compartilhar fábricas europeias, incluindo uma unidade em Rennes, no noroeste da França.
A leitura no mercado é que essa abertura pode gerar efeitos em cadeia sobre engenheiros, operários e fornecedores, justamente quando o governo tenta sustentar a narrativa de novas apostas industriais.
O investimento divulgado por Macron estaria ligado a uma planta no leste do país, onde a produção de uma nova geração de EVs está prevista para começar em 2029, e a Stellantis diz que dará detalhes assim que possível.
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