
A indústria automotiva da China virou sinônimo de crescimento fortíssimo, mas há um argumento ganhando força em eventos do setor: ela pode encolher quase na mesma velocidade em que expandiu.
Nos EUA, a relação com a China mistura fascínio por produtos baratos e desconforto com política industrial, matérias-primas e propriedade intelectual, e o carro entrou no centro desse choque.
O estalo mais recente para Detroit foi admitir que os veículos chineses evoluíram a ponto de serem vistos como superiores em várias frentes, especialmente em EVs.
Essa virada começou a acelerar depois de 2001, quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio e passou a expandir a indústria com escala e velocidade inéditas.
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Mazen Hammoud, diretor de Motion Tech Strategy da Ford, disse ter visto a mudança por dentro após trabalhar três anos na China, até o ponto de inflexão em que a capacidade local disparou.
Segundo Hammoud, o governo chinês concluiu que não valia a pena buscar motores a combustão revolucionários e decidiu “dar o salto” para a eletrificação.
Em 14 de abril, num painel de powertrain no SAE International World Congress Experience em Detroit, ele afirmou que regulações e incentivos sustentaram essa escolha estratégica.
O resultado, na leitura dele, é a liderança chinesa em EVs, com 70% das vendas globais de carros elétricos, uma cadeia de suprimentos robusta e obsessão por eficiência.
Ele também disse que fabricantes como a BYD, que superou a Tesla em vendas no ano passado, já estão no 4º e 5º ciclo de desenvolvimento de produto, ampliando a vantagem.
Só que a tese apresentada pelo analista geopolítico Gordon Chang no mesmo encontro vai na direção oposta do “rolo compressor inevitável”.
Chang afirmou que o tamanho e a velocidade do setor chinês podem ser justamente o que vai derrubar a indústria, num processo de consolidação agressiva.
Ele disse acreditar que a economia chinesa está em dificuldade, com sentimento do consumidor fraco e deflação no setor fabril pressionando margens e demanda.
Chang também citou desemprego de pelo menos 20% e afirmou que bancos estatais já estariam insolventes, pintando um pano de fundo duro para sustentar tantas montadoras.
Para ilustrar excesso, ele mencionou um oficial chinês que teria dito haver apartamentos vazios suficientes para abrigar toda a população de 1,4 bilhão.
No recorte automotivo, Chang citou uma reportagem da Reuters dizendo que o setor caminha para um crash e projetou uma “limpa” pesada na quantidade de empresas.
Na conta dele, haveria cerca de 150 montadoras na China hoje, e após o ajuste poderiam restar algo como 15, em um palpite que ressalta o risco de superlotação.
A pressão dessa superlotação aparece na provocação do professor Chris Atkinson, da Ohio State University, ao perguntar se dá para competir com 135 novos entrantes vendendo abaixo do custo.
Ao mesmo tempo, executivos ocidentais veem um risco estrutural mesmo que a China encolha: a dependência global de matérias-primas críticas continua concentrada.
Sherine Elakkad, vice-presidente de Electrified Powertrain Planning da Stellantis, disse que o controle chinês de insumos é o que tira seu sono, citando o lítio 25% mais caro.
Ela afirmou que a China processa 70% do grafite mundial e 90% das terras raras, defendendo localização, desenvolvimento antecipado com fornecedores e co-desenvolvimento.
Chang apontou que as vendas de carros na China caíram 17,4% em março em relação ao mesmo mês do ano anterior, sugerindo que a demanda já não cresce no mesmo ritmo.
Ele também disse que, no período combinado de janeiro e fevereiro, a Volkswagen teria superado a BYD como a marca mais vendida na China, e a Toyota também teria ultrapassado a BYD.
Nesse quadro, a indústria chinesa segue como referência tecnológica e de escala, mas passa a carregar o peso de excesso de capacidade e competição interna feroz.
A conclusão é que a mesma lógica que acelerou a expansão — incentivos, volume e rapidez de ciclo — pode alimentar uma contração rápida quando o mercado saturar e a margem evaporar.
Chang encerrou com uma frase atribuída a Vladimir Lenin sobre “décadas acontecendo em semanas”, e o alerta implícito é que isso também pode valer para um encolhimento.
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