
A Honda está engavetando o hub de fabricação de EVs e baterias de C$ 15 bilhões (R$ 10.812.900.000) em Ontário, segundo um novo relatório do Nikkei.
A decisão transforma o que foi vendido como interrupção temporária em algo que se parece cada vez mais com uma retirada por tempo indefinido.
Esse movimento é só mais uma peça no dominó do recuo acelerado da Honda na eletrificação, que já incluiu uma baixa contábil de 2,5 trilhões de ienes (R$ 78.503.900.000).
No pacote de cortes, a empresa também cancelou três modelos de EVs considerados essenciais para o mercado dos EUA e ainda enterrou a parceria do Sony Afeela.
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Quando a Honda anunciou o projeto de Alliston, em Ontário, em abril de 2024, a iniciativa foi tratada como o compromisso mais ambicioso da marca com EVs.
O plano previa uma nova fábrica de montagem de EVs com capacidade de 240.000 veículos por ano, além de uma planta de baterias de 36 GWh e instalações de processamento de material catódico.
A estratégia incluía joint ventures com POSCO Future M e Asahi Kasei, e a produção estava projetada para começar em 2028.
Em maio de 2025, a Honda pausou o projeto por cerca de dois anos, citando incertezas tarifárias sob a administração Trump e o enfraquecimento da demanda por EVs.
Naquele momento, a empresa afirmou que revisitaria o cronograma em 2027, mantendo a narrativa de que era apenas uma espera tática.
Agora, segundo o Nikkei, a Honda foi além e engavetou o projeto por completo, mesmo com a demanda por EVs acelerando globalmente.
A mudança de linguagem de “pausa” para “engavetar” sugere que a Honda já não trata o plano como atraso, mas como algo que pode nunca se materializar como originalmente desenhado.
A Asahi Kasei, que construía uma planta de materiais para baterias no Canadá vinculada ao projeto, também empurrou seu cronograma para 2029 ou mais tarde.
O engavetamento não ocorre isoladamente, porque é o capítulo mais recente de uma sequência que, na prática, desmontou a estratégia de EVs da Honda nos últimos três meses.
Em março de 2026, a montadora anunciou uma reestruturação que cancelou o sedã e o SUV da Honda 0 Series e o Acura RSX, trio que sustentaria a linha elétrica norte-americana.
Na mesma tacada, a baixa de até 2,5 trilhões de ienes (R$ 78.503.900.000) empurrou a Honda para o primeiro prejuízo anual como companhia aberta em quase 70 anos.
A empresa também desligou o Afeela, EV feito com a Sony que deveria partir de US$ 90.000 (R$ 441.500).
Para o ano fiscal encerrado em março de 2026, a Honda projetou queda de 59% no lucro operacional e apontou 650 bilhões de ienes (R$ 20.411.000.000) em perdas atribuídas só a tarifas.
Dentro desse total, estariam 300 bilhões de ienes (R$ 9.420.400.000) ligados a cobranças sobre cerca de 550.000 veículos importados.
A estratégia declarada agora foca em híbridos no curto prazo, enquanto EVs acessíveis abaixo de US$ 30.000 (R$ 147.200) ficam empurrados para o fim da década.
Nos EUA, o único EV “de pé” no portfólio seria o Prologue, que teve corte de preço de US$ 7.500 (R$ 36.800) e usa a base GM Ultium, sem ter sido engenheirado pela Honda.
Para o Canadá, o recuo é uma pancada nas ambições de construir uma cadeia doméstica de produção de EVs, já que Alliston era o centro do plano anunciado com bilhões em subsídios governamentais.
A Honda diz que o emprego atual em sua planta existente de Alliston, com 4.200 trabalhadores produzindo veículos a gasolina, não será afetado.
Ao mesmo tempo, a empresa está transferindo parte da produção do CR-V do Canadá para Ohio para navegar o cenário de tarifas.
O premiê de Ontário, Doug Ford, já havia prometido cobrar montadoras por recuarem de investimentos em EVs na província.
O Canadá também revogou o padrão obrigatório de vendas de EVs, trocando a meta de 100% de veículos de zero emissão até 2035 por um objetivo aspiracional de 75%.
No pano de fundo, a guinada para híbridos pode dar fôlego na América do Norte, mas não resolve a ameaça competitiva de marcas chinesas como a BYD, que avançam globalmente com EVs mais baratos e com tecnologia forte.
Se os EVs abaixo de US$ 30.000 (R$ 147.200) só chegarem “no fim da década”, a Honda corre o risco de descobrir que o mercado já terá seguido em frente sem ela.
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