Carro da semana, opinião do dono: Mitsubishi Lancer HLE 2017

Carro da semana, opinião do dono: Mitsubishi Lancer HLE 2017

Prezados amigos do N.A, meu nome é Gabriel e sou atual proprietário de um Mitsubishi Lancer HLE, ano 2016 modelo 2017 e esta será minha primeira oportunidade de participar da seção “Opinião do Dono”. Espero que seja produtivo para os demais colegas leitores e que traga curiosidades interessantes para os entusiastas.

Escreva também seu relato de opinião de dono! Nos mande pela seção de contato do site que teremos prazer em publicar!

Para iniciarmos, irei dispor alguns dados técnicos a respeito do veículo. Se trata de um sedan médio (compacto no exterior), motor 4B11 2.0 naturalmente aspirado, acoplado a um câmbio continuamente variável (CVT) que simula até 6 marchas, caixa essa a qual também equipou outros sedans de tração dianteira da época, como o Nissan Sentra e o Renault Fluence por um longo período.

Começando pelo propulsor, podemos destacar algumas peculiaridades que diferenciam o Lancer dos concorrentes: Com 86mm de diâmetro de cilindro e 86mm de curso do pistão, este motor “quadrado”, com bloco e cabeçote de alumínio, velas iridium, duplo comando de válvulas e tocado por corrente, também equipou a linha ASX aqui no Brasil, porém no Lancer a Mitsubishi optou por não tropicalizar o projeto, mantendo-o limitado ao uso de gasolina, impedindo o abastecimento com etanol. Não se sabe ao certo a razão dessa decisão.

Internacionalmente, este motor teve inúmeras variações em litragem e aplicações, graças a acordos comerciais, equipando até mesmo carros de outras marcas, como Chrysler e Hyundai.
Nos Estados Unidos, existiram além da 4B11 2.0 aspirada, versões como a 4B12 (que possuía 2.4L e produzia até 168cv) e a versão 4B11T (que possuía 2.0L e turbo, produzindo picos de até 400cv, equipando os Lancers Ralliart e Evolution).

Sendo assim, a família Lancer era disposta da seguinte forma, na maioria dos países de primeiro mundo: ES (2.0 – 4B11 CVT), GTS (2.4 – 4B12 CVT), Ralliart (2.0T – 4B11T Manual ou Automatizado) e Evolution (2.0T – 2B11T Manual ou Automatizado).

Carro da semana, opinião do dono: Mitsubishi Lancer HLE 2017

Entre as versões mais potentes, Ralliart e Evolution, existia a diferença de potência e acabamento, onde respectivamente a primeira representava o primeiro passo rumo a um carro esportivo, turbinado e prático para o dia a dia, já a segunda representava maiores compromissos em conforto e usabilidade, devido seu maior refinamento em performance (porta-malas menor, bateria realocada, menos espaço interno, carroceria mais larga, freios mais parrudos, etc.) dada a intenção da Mitsubishi de vender o Evolution como versão de homologação para seus carros de competição.

No Brasil, contudo, somente foram disponibilizadas 4 combinações possíveis para o Lancer: HL (2.0 Manual ou CVT), HLT/HLE/GT (2.0 CVT), Ralliart Sportback (2.0T Automatizado) e Evolution (2.0 Automatizado).

As versões mais racionais, pautadas pelo perfil de compra do segmento, respeitando o posicionamento dos líderes Civic e Corolla foram as que mais venderam e por isso temos hoje o predomínio de Lancer’s 2.0 CVT em virtude da escassez de modelos turbinados, cada vez mais raros. Estes, Ralliart e Evolution, foram ofertados somente com câmbio automatizado de dupla embreagem SST (é recomendado muita pesquisa e reza antes da aquisição).

Enquanto sedã médio, o Lancer é um dos melhores carros que se pode adquirir em versões completas, dada a sua fartura de equipamentos e robustez estrutural. Itens que não apareciam nos concorrentes, como teto solar elétrico, acendimento automático de faróis de xênon, limpadores de para-brisa automático, 9 airbags (além do sistema RISE, que usa materiais reforçados e barras estruturais para garantir 100% de segurança aos ocupantes) e paddle shifters, recheavam o pacote de equipamentos do sedan da Mitsubishi frente aos demais.

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O lado negativo da aquisição de um Lancer, paradoxalmente se dá ao fato dele não ser um Corolla. Sob os olhos do mercado, muitas vezes sem o devido conhecimento técnico, enxergam-no como um carro esportivo, difícil de usar e revender, propenso a estresses que seriam ausentes em um sedan anestesiado convencional. Na prática, isso implica que mesmo que você tenha uma ótima satisfação com o carro, vende-lo será um pouco mais demorado que os demais sedans, e que sempre haverá aquele tio perguntando se esse não é o carro do Velozes e Furiosos, com aerofólio e escapamento barulhento.

Sob olhar de proprietário, posso afirmar que na realidade, o dia a dia com um Lancer é tão sereno que às vezes até incomoda. O carro é suave, a suspensão não demonstra esforço ao passar em leves desníveis. Os pneus Pirelli, apesar de aro 18, combinados com o câmbio CVT fazem o carro flutuar. O consumo em estradas vazias, utilizando somente da inércia para se movimentar, beira os 13km/L e o nível de ruídos na cabine é nulo. O carro mal parece estar ligado em certos momentos, o que causa incômodo para nosso espírito entusiasta.

No interior, também não há nenhum problema. Tudo está ao alcance de motorista, prático e com visual sóbrio. Você não precisa fazer esforço nenhum para dirigir um Lancer, ainda mais nas versões HLE e GT, onde o carro abre seu caminho com farol e limpadores automáticos. É um carro que você pode utilizar diariamente, como é o meu caso, e chegará em casa como se tivesse ido de Uber. O toque macio dos bancos e apoios em couro fazem você se distanciar de qualquer preocupação mundana, ainda mais com o ar-condicionado automático regulando a temperatura ideal sem você precisar sequer olhar para os dials.

Carro da semana, opinião do dono: Mitsubishi Lancer HLE 2017

Quer mais? Use o piloto automático (cruise control) e até sua perna poderá ficar descansando. Se precisar ultrapassar alguém, basta apertar um botão no volante que o giro do motor sobe e você seguirá seu caminho. Muitas vezes durante viagens noturnas eu honestamente precisei tomar cuidado para que todos esses mimos não me induzissem ao sono.

Minha esposa, particularmente não gostava do carro no início, em parte por causa daquela visão estereotipada de carro esportivo, digno de playboy, onde o barulho presunçoso cobre inseguranças pessoais (vocês devem conhecer alguém assim). Depois de uma única viagem, ela foi conquistada pelos mimos do carro e hoje o associa a carros de luxo, pretensão essa que o Lancer nunca teve e nem quis ter. Ele é somente um sedan compacto eficiente. Supreendentemente, ao analisarmos, isso é raridade hoje em dia: eficiência.

Agora, abordando os problemas enfrentados com o produto e a marca: Alguns aspectos do carro, como componentes da direção e freios são frágeis perante uso brasileiro. Nossas ruas são como as de um pós-guerra. Buracos, desníveis, imperfeições, lombadas, remendos mal feitos e materiais de baixa qualidade fazem com que peças pequenas se desgastem mais rápido, como os pinos que seguram as pinças de freio.

Estas, por sua vez, ficam folgadas e causam um barulho metálico que chama atenção de qualquer pedestre, pois parece que o carro irá se desmontar ao passar por vias de paralelepípedo ou afins. Mas não é o caso, se trata apenas de uma micropeça de borracha que mesmo trocada, mais para frente com certeza aparecerá danificada novamente, pois ela nunca foi dimensionada para receber tantos castigos constantes como recebe do piso brasileiro.

Meu conselho: Troque caso queira, a substituição do conjunto beira os R$800 em concessionária, mas saiba que fechar os vidros e ligar o ar resolve imediatamente o problema, de graça. É só ignorar as expressões das pessoas na calçada. Afinal, você está em um Lancer, eles não.

O consumo: Totalmente inesperado, pois li em muitos lugares que o carro não conseguia passar dos 9Km/L em ciclo urbano. Comigo, dirigindo devagar, mantendo o embalo e com o ar desligado (ando com o teto solar aberto, refrigerando a cabine), o computador de bordo dedura números como 11-12-13 Km/L. Estou muito satisfeito, principalmente se tratando de um carro grande e pesado, num país onde o litro da gasolina hoje custa R$7.50.

A manutenção: Inexistente, na maioria dos casos. Troca de óleo de motor e filtros a cada 5.000km, rodízio e alinhamento dos pneus, troca do fluído do CVT a cada 50.000km. Verificar amortecedores e buchas, verificar lubrificação do teto solar, e pronto. Nada de surpresas desagradáveis. Nunca tive nenhum problema mecânico até hoje.

Vale apenas ressaltar que os modelos iniciais, produzidos entre 2012 e 2014 tinham problemas com aquecimento do CVT (zunidos e mensagens no painel), pois a Mitsubishi do Brasil não instalou nestes carros o radiador do fluído da transmissão. Ou seja, compre um Lancer que veio depois, quando a marca já havia assumido o erro dessa supressão e não queria mais sofrer juridicamente. Um Lancer CVT com kit de radiador original, fluído trocado e histórico de bom uso não dará nenhuma dor de cabeça.

O Seguro

Está dentro do padrão da categoria, podendo variar de acordo com a localidade. No Rio de Janeiro, os queridinhos dos ladrões são Honda Civic e Hyundai HB20. Ou seja, ter um sedã da Honda representaria certamente um maior custo na apólice e uma exposição constante a marginalidade. Eu diria que o seguro do Lancer é muito semelhante ao relatado pelos proprietários do Sentra, mantém como guia os valores do Corolla porém um pouco mais baixo.

A Marca

A Mitsubishi é um conglomerado muito maior do que nós brasileiros imaginamos. Suas marcas não vendem somente carros e televisores. No Japão, a Mitsubishi fornece desde sistemas empresariais (soluções de TI, atuação na bolsa de valores, administração) à exploração industrial de recursos (mineração, energia eólica, plantas nucleares). Portanto, quando a matriz japonesa concedeu a sua representante brasileira a possibilidade de vender seus consagrados carros (L-200, Pajero, Lancer..) não esperava diretamente um estrondoso sucesso, mas sim uma expansão de mercado.

E foi o que aconteceu, hoje o Brasil consome carros Mitsubishi assim como demais países do mundo, e a bola da vez são os crossovers urbanos e suvs elétricos. Distante de suas raízes nipônicas, a marca aqui não faz questão de manter vivas tradições esportivas. Somente venderão os produtos de alta rotatividade e que expressarem maior lucro, como tem feito ao extinguir qualquer veículo que saia desse padrão em seu portfólio. Portanto, hoje nomes como Ralliart e Evolution ficam somente no inconsciente coletivo dos que viveram os anos 90-00.

Veredito

Se o objetivo for adquirir um dos carros mais completos, robustos e confiáveis já produzidos, utilizando toda a expertise de uma companhia gigantesca, evoluindo (pegaram o trocadilho?) a cada versão seu produto final, compre um Lancer antes que o mercado perceba o real valor desse carro e ele valorize ainda mais.

De quebra, ainda vai ganhar aquela sensação de afago ao ver em sua garagem um carro muito próximo daquele ícone japonês que vimos brilhar em filmes, jogos, vídeos e revistas de época. Só não se empolgue muito e instale neon.

Por Gabriel Monico

Eber do Carmo

Formado em marketing, tem mais de 15 anos de experiência escrevendo sobre o mercado automotivo no Notícias Automotivas, desde que fundou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Também teve por três anos uma empresa de criação de sites e catálogos eletrônicos.