Venezuela: como funciona o mercado de automóveis

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Muitos ficaram espantados com os preços sugeridos para o Dodge Forza no mercado venezuelano, lançado por lá em 2013. Mesmo sendo feito no país, o Fiat Siena rebatizado com a marca americana custava o equivalente a R$ 95.000!


E não é somente ele. Uma rápida pesquisa em 2021 mostra que um Ford Bronco Sport Wildtrak sai por mais de R$ 301 mil (confira aqui Avaliação: Ford Bronco é rápido no asfalto e bravo na terra), o que inclui o valor convertido em dólar e mais 16% de imposto.

Tem algo estranho? Realmente. A Venezuela hoje pode se considerar o país com os carros mais caros do mundo, e não outro latino-americano deitado em berço esplendido, como muitos pensavam.

No entanto, se o espanto é com os preços de tabela, pior é saber que fora da loja o negócio (para quem vende, é claro) é muito melhor.

Com as restrições às operações com dólar, a Venezuela passou a importar e produzir menos veículos. O governo tem uma taxa cambial de 4,18 bolívares para 1 dólar. Antes que você pense que a moeda local vale mais que a nossa, é preciso explicar essa conta.

Em outubro de 2021, o governo venezuelano anunciou a eliminação de seis zeros por causa da hiperinflação. Ou seja, tudo que era expresso na moeda que circula no país se dividiu em 1 milhão.

Na prática, a cotação oficial do dólar no país era equivalente a 4,18 milhões de bolívares. Com o corte dos zeros, ficou apenas 4,18. Desde 2008, 14 zeros já foram eliminados do bolívar.

Isso faz com que os preços dos veículos novos subam às alturas. Além disso, as próprias montadoras reduzem a produção por causa da falta de peças e impossibilidade de investir mais dinheiro nas operações.

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Se a indústria e o comércio de automóveis estão mal na Venezuela, o poder de compra dos consumidores não seguia a mesma rota. A demanda por carros era muito grande, só que não havia disponibilidade de produto.

Muitas lojas nem tinham prazo de entrega e quem conseguia comprar, imediatamente vendia por duas ou três vezes o valor de tabela. Lembra-se da Fortuner? Depois de emplacada, ela realmente vira uma fortuna na mão do proprietário, que pode vender facilmente por 1,5 milhão de bolívares ou mais de R$ 522,4 mil!

O preço alto é compensado pelo subsídio aos combustíveis, sendo que a gasolina custa em média R$ 0,10 o litro. Em alguns locais, nem mesmo é preciso pagar para abastecer, já que os valores são irrisórios.

No entanto, se você está lá e quer unir o útil ao agradável, pode partir para o mercado negro, onde a cotação do dólar é bem mais baixa e a Fortuner pode custar em torno de R$ 60.000.

Mesmo assim, os números não ajudam. A importação tem despencado, já que o governo quer priorizar a produção nacional, assim como o Brasil faz atualmente, mas controlando os preços e retendo a entrada de dólares.

Em 2008, a Venezuela importou 135.499 veículos, mas em 2012 apenas 25.296 entraram no país. A produção cai de 172.418 em 2007 para 105.000 em 2012. No primeiro trimestre de 2013, a produção caiu 51,7% e não passou de 14.316 unidades.

A imposição de regras para cotação de preços sugeridos e comercialização de veículos tem prejudicado enormemente o mercado local. Assim, a Venezuela é um país com demanda fortemente reprimida.

[Fonte: La Capital/El Tiempo]

Autor: Ricardo de Oliveira

Técnico mecânico, formado há 26 anos. Há 15 anos trabalha como jornalista no Notícias Automotivas, escreve sobre as mais recentes novidades do setor, frequenta eventos de lançamentos das montadoras e faz nossos testes e avaliações.